2.3
CLASSES DE INOVAÇÃO 

Apresenta-se agora uma última forma de classificação da inovação, por classes (Freire, A., 1996), que se baseia na comparação directa do novo produto com os produtos eventualmente já existentes. Assim, é possível classificar a inovação como:

  • Incremental

  • Distintiva

  • Revolucionária

Nas secções seguintes serão apresentados e discutidos alguns exemplos de cada uma destas classes, utilizando os casos de inovação referidos no Subcapítulo 2.1. 

2.3.1  INOVAÇÃO INCREMENTAL 

Inovação incremental é aquela em que o novo produto incorpora alguns novos elementos em relação ao anterior, sem que, no entanto, sejam alteradas as funções básicas do produto.
Alguns exemplos de inovações incrementais são:

  • A escova de dentes - No desenvolvimento de novas escovas de dentes, seja pela introdução de designs mais ergonómicos, seja pela utilização de novos materiais, a generalidade das inovações não se traduzem em qualquer alteração das funções básicas do produto.

  • O Skip Tablets - Embora a sua forma de apresentação seja distinta dos outros (o Skip em pó e o Skip concentrado), este novo produto não incorpora características que o tornem significativamente diferente.

  • As pilhas  Duracell  - O aumento do tempo de duração das pilhas corresponde à melhoria das características iniciais de um produto de base existente.



A empresa
Confrontado com as consequências da 2ª Guerra Mundial que afectaram o seu negócio de material de escrita - dada a sua dependência de importações de países profundamente afectados com a guerra -,  Mário Lino  decide criar em 1948 a Molin para produzir material escolar e técnico em madeira. Em 1965, são inauguradas as novas instalações e inicia-se a produção de canetas e marcadores. Ainda na década de 80, a Molin inicia a sua estratégia de internacionalização, criando sucursais comerciais no Reino Unido e na Venezuela. O Reino Unido constituiu um teste à Molin, uma vez que se tratava de um mercado muito exigente e aberto à concorrência internacional, pelo que a empresa teve que se bater de igual para igual com famosas marcas internacionais como a  Bic ,  Paper Mate ,  Conté  e  Pilot . O desafio foi vencido e o Reino Unido é hoje o principal mercado externo da empresa. Actualmente, a Molin tem presença comercial própria em três continentes - Europa, África e América - e já está representada por agentes na Ásia em países como o Japão, Singapura e Taiwan. Na década de 90 abriu na África do Sul a sua primeira unidade fabril no estrangeiro.

As inovações
O crescimento da Molin tem-se baseado em dois factores decisivos: inovação e marca. Apesar de a inovação ter como motor muitas vezes a necessidade de resposta a imposições internacionais de normas de segurança, a Molin vem demonstrando, no entanto, como filosofia de negócio o desejo de ultrapassar a concorrência na criação de maior utilidade para os clientes. À Molin são reconhecidos alguns feitos como:

  • ter sido o primeiro produtor europeu a criar uma máquina de desenho ortogonal; 

  • ter sido em 1980 a primeira empresa a fabricar 100 marcadores de cores diferentes e laváveis, feito ainda não igualado.

No quadro 2.2 incluem-se outras inovações desenvolvidas pela Molin, a par dos principais líderes mundiais. A generalidade destas inovações correspondem a inovações incrementais.
Os resultados da aposta na inovação e na marca conduziram a que a Molin, 50 anos após a sua criação, produza mais de 1 milhão de unidades de escrita por dia e ocupe um lugar entre as 20 maiores empresas do sector, a nível mundial.

Quadro 2.2 - Inovações desenvolvidas pela Molin, a par dos principais líderes mundiais.

Fonte: www.molin.pt

2.3.2  INOVAÇÃO DISTINTIVA 

Uma inovação distintiva caracteriza-se pelo facto de o novo produto, embora possuindo um conjunto de características idênticas àquele a partir do qual foi desenvolvido, apresentar uma série de atributos a que correspondem funções inexistentes anteriormente.
Alguns exemplos de inovações distintivas são:

  • Banco 7 - Através do Banco 7, o Banco Comercial Português criou um serviço inovador, distinto dos existentes no mercado, que permite ao cliente aceder ao conjunto de serviços normalmente disponibilizados pela banca convencional sem ter de sair de casa e a qualquer hora do dia.

  • O  WC Pato  - Este produto, com uma embalagem inovadora com a extremidade em forma de pescoço de pato, facilita a limpeza das zonas mais difíceis, constituindo isto uma mais-valia que nenhum outro produto consegue oferecer.

  • A  Atlantis  e a  Vista Alegre  - Através do design dos seus produtos, estas empresas conseguiram diferenciar-se de outros existentes, sendo os elementos distintivos facilmente reconhecíveis pelos consumidores. 

A empresa
Fundada em 1983 por  Peter Markowitz , na Califórnia, a empresa encontra-se hoje-em-dia presente em mais de 70 países, onde opera directa ou indirectamente mais de mil e quinhentos centros. A Future Kids foi criada com a missão, a longo prazo, de promover a integração das crianças num mundo em que a informática e as novas tecnologias têm uma importância crescente. Actualmente, a empresa lidera o ranking mundial da formação em computadores para a faixa etária mais jovem, segmento em fase de crescimento exponencial. Esta liderança foi conseguida através de um processo de internacionalização baseado no franchising, o que se revelou uma via adequada à expansão rápida e eficiente de uma empresa jovem, com recursos limitados. Ao optar por este regime, a Future Kids conseguiu manter a unidade da sua cultura organizacional, através da uniformização do serviço prestado a nível mundial.

A inovação
A formação ministrada pela Future Kids dirige-se a crianças e jovens dos três aos quinze anos. A metodologia é inovadora e assenta em sessões de formação com temas actuais, em programas adaptados às capacidades dos alunos e num ensino personalizado, flexível e abrangente, moldável às características individuais de cada aluno, ao contrário do estilo de formação tradicional. O sistema é dinâmico, sendo o programa de formação alterado anualmente. Esta metodologia apoia-se, naturalmente, na utilização de computadores e de programas desenvolvidos por empresas independentes, sob a orientação pedagógica da Future Kids. O ensino visa, todo ele, ajudar as crianças a aprender e a utilizar o computador não só como uma ferramenta de trabalho mas, essencialmente, como um instrumento de expressão e de criatividade individual e colectiva.

Fontes: Freire, A., 1997d; www.futurekids.com

2.3.3  INOVAÇÃO REVOLUCIONÁRIA 

Este tipo de inovação caracteriza-se por uma ruptura completa com os produtos existentes para satisfação de uma dada necessidade, ou mesmo pela criação de uma nova necessidade até aí inexistente ou que se encontrava latente.
Alguns exemplos de inovações revolucionárias são:

  • A Via Verde - Este sistema de pagamento automático de portagens foi uma inovação a nível mundial. Teve como motor a satisfação de uma necessidade resultante de um fluxo de tráfego superior ao previsto, para o qual as portagens da auto-estrada A5 não estavam dimensionadas. Na impossibilidade de as expandir, por limitação de espaço, a Brisa desenvolveu o conceito inovador que se viria a concretizar na criação da revolucionária Via Verde.

  • O  GPS - Global Positioning System  - O sistema GPS revolucionou por completo os processos de determinação de localização geográfica, permitindo caracterizar a posição em termos de latitude, longitude e altitude, com elevada exactidão.

  • O  telefone celular  - A utilização das ondas hertzianas como meio de propagação do sinal constituiu uma ruptura completa com o princípio de funcionamento do telefone convencional. O carácter revolucionário desta inovação alterou completamente os hábitos de comunicação telefónica entre as pessoas.


O enquadramento
A evolução na indústria automóvel tem sido uma constante inovação. A segurança do automóvel é uma das principais preocupações dos fabricantes. É muitas vezes no factor segurança que os fabricantes de automóveis se tentam posicionar e distinguir dos seus concorrentes. Tradicionalmente, os norte-americanos deram prioridade à protecção que o carro oferecer em caso de acidente, a chamada segurança passiva. Os fabricantes europeus, por outro lado, priviligiaram a segurança activa, procurando desenvolver carros mais ágeis, com mais estabilidade em curva e nas travagens, que permitissem ao condutor um maior controle e capacidade de escapar de situações potencialmente perigosas. Nos últimos anos, com os efeitos da globalização que atingiu igualmente a indústria automóvel, o fosso entre europeus e norte-americanos diminuiu.
Ao nível da segurança passiva foram surgindo dispositivos como os pára-choques, os cintos de segurança, os vidros folheados e posteriormente laminados, as zonas de deformação progressiva e as barras de protecção nas portas.

A inovação
Mais recentemente, em 1981, a MBB e a  Mercedes  apresentaram um dispositivo de segurança revolucionário, o air bag. Contudo, a ideia de uma almofada que se insufla em caso de impacto em que haja uma forte desaceleração, evitando o contacto dos ocupantes do banco dianteiro com o painel, com o volante e com o pára-brisas, remonta à década de 50. As primeiras patentes, de  Hetrick  e  Hodges , datam de 1952/53. O desfasamento verificado entre o aparecimento da ideia e a sua aplicação, bem como a evolução dos air bags, esteve associado ao estado de desenvolvimento e à evolução da electrónica. O enchimento do air bag, efectuado através de uma pequena carga explosiva detonada quando os sensores detectam um choque, é processado em coordenação com o alargar e o prender do cinto de segurança, igualmente comandado por sensores.
Apesar das suas vantagens, os air bags, colocados na coluna de direcção, apenas actuam em casos de embates frontais. Para evitar ferimentos resultantes de embates laterais, foram concebidos os side bags ou air bags laterais. O desenvolvimento destes revelou-se mais problemático, pois enquanto que num choque frontal há uma estrutura que absorve energia e permite ganhar tempo antes que a energia libertada se transmita ao habitáculo, num embate lateral o corpo está logo ao lado da porta. Segundo estudos recentes da  BMW , num choque a 40 km/h o corpo humano é projectado a uma velocidade de 11 centímetros por milésimo de segundo, e em média a porta está a 25 centímetros da cabeça dos ocupantes dos bancos dianteiros. Deste modo, foi necessário criar e desenvolver sensores mais apurados e sistemas de gestão com uma capacidade de reacção mais rápida. A partir de 1994, a  Volvo  passou a equipar os seus modelos com os air bags laterais.
Apesar do aumento da segurança em caso de colisão lateral, a protecção oferecida pelos air bags colocados nas portas ou lateralmente nos bancos só é eficaz ao nível do tronco, não oferecendo protecção para a cabeça. Para responder a esta limitação era necessário um sistema capaz de actuar mais rapidamente do que um air bag tradicional mas que, pela sua proximidade da cabeça, tivesse um enchimento menos violento e mantivesse a almofada durante mais tempo, de modo a responder às exigências de um capotamento. A BMW desenvolveu um sistema de air bags laterais tubulares capaz de actuar em complemento à almofada de ar lateral colocada nas portas. Em vez da tradicional almofada, criou um tubo - o que exige um menor tempo de enchimento - com uma inclinação compatível com as diversas estaturas dos ocupantes, dotado de válvulas de retenção que prolongam o tempo em que está insuflado e que o mantêm activo mesmo em caso de vários impactos (e.g. capotamento). Este sistema está já disponível na Série 7 e irá equipar brevemente a Série 5.

Fontes: Coutinho, A., et al., 1998; www.carrofacil.com.br/airbag.html; www.nhtsa.dot.gov/airbags/

Sendo possível classificar a inovação como incremental e distintiva, existem autores que defendem que a verdadeira inovação tem necessariamente de ser revolucionária:

"Precisamos de fazer algo quando as pessoas acham a ideia louca. Quando acham que é uma boa ideia é porque já há alguém a fazer isso."
Hajime Mitari, Presidente da Canon.

"Incrementalismo é o pior inimigo da inovação."
Nicholes Negroponte, MIT Media Lab.

"Pense revolução, não evolução."
Richard Sullivan, Vice Presidente da Home Depot.

Conforme abordado no Capítulo 1, este é um entendimento restrito do conceito de inovação. No entanto, estas frases revelam que, no entender de alguns autores, a inovação incremental, em particular, pode constituir um obstáculo à inovação. Entendem que a procura da melhoria por incrementos sucessivos pode afastar as empresas da descoberta de soluções revolucionárias que contribuiriam eventualmente para dar saltos muito significativos no nível de desenvolvimento e do conhecimento.

Qualquer inovação é classificável simultaneamente em termos de tipo, natureza e classe. A classificação segundo cada uma destas terminologias é completamente independente. Para ilustrar essa independência, o conjunto de exemplos apresentado nos Subcapítulos 2.2 e 2.3 é posicionado em termos de natureza e classe de inovação no quadro 2.3. Inovações do mesmo tipo podem ser caracterizados de forma distinta, em termos de natureza e de classe (e.g. Walkman e normas ISO 9000).

Quadro 2.3 - Posicionamento dos exemplos apresentados em termos da natureza e classes de inovação.

© Sociedade Portuguesa de Inovação, 1999
Edição e Produção Editorial: Principia.    Execução Técnica: Cast, Lda.