2.3
ANÁLISE MODAL DE FALHAS E EFEITOS
http://www.quality-one.com/fmea.htm

No estudo da Inovação, as sete ferramentas básicas da Qualidade que acabámos de introduzir vocacionam-se em especial para a melhoria dos processos já existentes. Iremos agora descrever uma técnica adicional de planeamento, concebida em particular para um eficaz desenvolvimento de processos e produtos, numa óptica preventiva. Trata-se da Análise Modal de Falhas e Efeitos (AMFE), uma metodologia analítica utilizada para garantir, na medida do possível, a identificação de todos os potenciais modos de falha e causas correspondentes associados ao projecto ou processo de fabrico de um determinado produto.
As AMFE's foram utilizadas pela primeira vez na década de 60, no sector da indústria aeroespacial e, desde então, o seu uso tem-se progressivamente alargado. Actualmente, no sector automóvel, a maioria dos construtores fomenta a utilização de AMFE's por parte dos seus fornecedores, durante o desenvolvimento de novos produtos e na introdução de alterações de engenharia, levando-os a inovar nos processos de fabrico, a reduzir custos e a prevenir a ocorrência de falhas com o produto.
A construção de uma AMFE deverá ser efectuada por uma equipa multidisciplinar cujas ideias e criatividade são imprescindíveis para o sucesso na sua aplicação. Esta ferramenta pode ser empregue em qualquer uma das seguintes fases do ciclo de vida associado a um produto:

  • na concepção do produto;

  • no fim do projecto;

  • na pré-planificação da produção;

  • durante o processo de fabrico;

  • aquando da introdução de acções de melhoria, ou alterações ao processo/produto.

É então possível distinguir dois tipos de AMFE, representativas de estágios diferentes de análise:

  • a AMFE de Projecto, que é utilizada logo no início do ciclo de vida do produto. Consiste numa análise detalhada do projecto com o objectivo de prevenir os modos de falha a ele associados e de garantir o funcionamento eficaz do produto durante a produção;

  • a AMFE de Processo, que compreende um estudo pormenorizado das diferentes partes do processo visando prevenir os modos de falha antes mesmo do início da produção e de se ter gasto dinheiro em equipamentos. A ênfase é colocada na prevenção ou, pelo menos, na detecção de alterações nas variáveis de processo que possam conduzir a um desvio das especificações de projecto.

A AMFE permite, de forma preventiva, obter ganhos de Qualidade e inovar de modo a evitar falhas posteriores, apresentando produtos e processos mais robustos e adequados ao fim a que se destinam. Quando correctamente utilizada, desafia as equipas a desenvolver soluções criativas para os potenciais problemas mais importantes.
A construção de uma AMFE de Processo deverá ser iniciada com o desenho do respectivo fluxograma. Na posse deste elemento e de um formulário AMFE (figura 2. 17), o grupo de trabalho vai identificar os modos, efeitos e causas de falhas potenciais.

 

FIG. 2.17 Exemplo de formulário utilizado para a construção de uma AMFE
ANÁLISE MODAL DE FALHAS E EFEITOS POTENCIAIS
       
Processo: Fornecedores e Fábricas Afectadas: Preparado Por: Código:
Referência/Cliente: Referência/Denominação:   Edição:
Departamentos Responsáveis: Data/Nível de Engenharia: Data Prev. de 1ª Produção Data:
      Página:
Descrição
do Processo:
Modo
Potencial
da Falha
Efeito(s)
Potencial(ais)
da Falha
G Causa(s)
Potencial(ais)
da Falha
O Controlos
Actuais
D N
P
R
Acções Recomendadas Medidas
Tomadas
G O D N
P
R
                             

A prioridade atribuída aos diferentes elementos decorre do produto de três factores, pontuados entre 1 e 10:

  • Gravidade (G): aplica-se ao efeito, e é avaliada em termos da importância de que se reveste face ao cliente. As falhas graves, aquelas que influenciam negativamente a segurança do produto, têm uma pontuação elevada (mais próxima de 10). Pelo contrário, às falhas que não têm qualquer efeito negativo significativo para o cliente corresponde a pontuação mínima (1).

  • Ocorrência (O): é definida como a frequência com que se prevê que ocorra um modo de falha, decorrente de uma causa específica. Às frequências muito baixas (< 1ppm) atribui-se a pontuação 1 e às frequências muito altas (>10%) a pontuação 10.

  • Detecção (D): é a avaliação da probabilidade que o processo tem de detectar o modo da falha antes de o produto ser remetido para o cliente. Se a detecção for quase impossível, é-lhe atribuída a pontuação 10; sendo praticamente garantida, a pontuação 1.

Uma vez identificados todos os modos de falha, calcula-se o número de prioridade de risco (NPR) respectivo, que decorre da multiplicação dos três factores considerados até aqui (NPR = G x O x D). Seguidamente, dá-se prioridade máxima, em termos de alterações a efectuar, aos modos de falha com valores mais elevados de NPR. Procura-se, então, reduzir um ou mais dos correspondentes factores (G, O ou D), desafiando a equipa AMFE a adiantar novas soluções e definir quais a medidas adequadas para baixar os valores de NPR até limites considerados aceitáveis.

 

FIG. 2.18 Exemplo de uma AMFE (versão simplificada).
ANÁLISE MODAL DE FALHAS E EFEITOS POTENCIAIS
       
Processo: Fornecedores e Fábricas Afectadas: Preparado Por: Código:
Referência/Cliente: Referência/Denominação:   Edição:
Departamentos Responsáveis: Data/Nível de Engenharia: Data Prev. de 1ª Produção Data:
      Página:
Descrição
do Processo:
Modo
Potencial
da Falha
Efeito(s)
Potencial(ais)
da Falha
G Causa(s)
Potencial(ais)
da Falha
O Controlos
Actuais
D N
P
R
Acções Recomendadas Medidas
Tomadas
G O D N
P
R
  Cabelo no Prato Prato
devolvido
10 Não
utilização
de toucas
2 Inspecção
visual
4 80 Utilização
Obrigatória
de toucas
Distribuir
toucas
10 1 4 40
  Chispe mal
raspado
Aspecto
desagradável
6 Esquecimento 4 Inspecção
visual
1 24 Antes de
colocar a
carne na
panela
verificar se
foi bem
raspada
Afixar
instruções
na
cozinha
6 3 1 18
  Quantidade
de Sal
Reclamação
do cliente
inadequada
5 Utilização
de
diferentes
tipos de Sal
4 Prova 5 100 Utilizar sempre
o mesmo
tipo de
Sal
Gestão de
stock de
Sal
5 1 5 25

Com o objectivo de prevenir a ocorrência de falhas significativas no processo de preparação do Cozido à Portuguesa, a equipa do "Bom Garfo" resolveu construir uma AMFE (figura 2.18). Como resultado deste exercício, foram compradas toucas novas para todo o pessoal da cozinha, ficando igualmente decidido utilizar sempre, a partir de então, sal do mesmo tipo e da mesma marca.

A AMFE assume-se enquanto metodologia dirigida para evitar, a priori, a posterior ocorrência de falhas. Posiciona, portanto, a Inovação e Qualidade em torno de processos e produtos robustos e fiáveis, no sentido de evitar que mais tarde surjam surpresas desagradáveis. Tal como diz o ditado popular: "mais vale prevenir do que remediar!".

 

© Sociedade Portuguesa de Inovação, 1999
Edição e Produção Editorial: Princípia.    Execução Técnica: Cast, Lda.