4.3.5
MÉTODO KJ

 

O método KJ, também conhecido por diagrama de afinidades ou método LP (Language Processing), é talvez a ferramenta mais rica e importante de uma geração de 7 novas ferramentas da qualidade, igualmente designadas de ferramentas de gestão ou de planeamento.
A génese desta técnica remonta a 1951, ano em que Jiro Kawakita
(antropólogo japonês a quem o método deve a paternidade e a designação, composta pelas iniciais do seu nome) terá desenvolvido uma primeira versão do KJ. Fazendo frequentemente trabalho de campo, a razão que o levou a desenvolver esta técnica prende-se com a sua necessidade de resumir, perceber, estruturar e organizar os dados ou observações que ia recolhendo no terreno ao tentar estudar o comportamento de várias populações. Sem nenhuma metodologia capaz de o ajudar em tal tarefa, Jiro Kawakita concebeu então uma primeira versão daquilo que hoje conhecemos como método KJ. Ao desenvolvê-lo, tentou-se, portanto, colmatar uma lacuna de metodologias que permitissem trabalhar e estudar informação de índole qualitativa, baseada em frases. Podemos dizer metaforicamente que esta técnica conduz ao cálculo sucessivo de "médias" de conjuntos de frases, por forma a resumir e compreender o seu significado.
Assim, o método KJ visa essencialmente:

  • estruturar, organizar e fazer a síntese de informação qualitativa;

  • perceber e classificar problemas/ideias/pensamentos;

  • identificar relações e conceitos em domínios complexos;

  • estimular e aproveitar as capacidades de síntese/organização de ideias/criação de conceitos/Inovação em equipa, através da descoberta de novas associações e rearranjos de ideias a partir de opiniões factuais e da intuição criativa (mais do que lógica) de um grupo de trabalho;

  • proporcionar o crescimento/desenvolvimento da equipa, decorrente da vivência de um processo que assenta na construção de consensos, na colaboração activa de todos e na partilha de resultados.

Como decorre dos objectivos acima referidos, e atendendo à sua natureza, o método KJ pode ser aplicado numa enorme variedade de circunstâncias e processos de Inovação. A sua utilização é especialmente relevante em situações que se caracterizam por alguma complexidade, relativamente às quais existe somente uma sensação vaga e pensamentos soltos, expressos qualitativamente.
Tipicamente, o método KJ aplica-se quando estamos interessados em responder a perguntas do tipo "Quais…?" em áreas de alguma subjectividade. O quadro 4.6 apresenta alguns casos concretos de utilização da metodologia, tanto em actividades de desenvolvimento de novos produtos (onde é frequentemente integrada em processos de engenharia de conceitos e de desdobramento da função qualidade), como de reflexão sobre questões estratégicas e vitais para o funcionamento das organizações e da sociedade em geral.

 

Quais são os principais requisitos do cliente relativamente a um jardim de infância?
Quais são as maiores evoluções a que iremos assistir no mercado da consultoria?
Quais são as principais dificuldades que sinto na empresa?
Quais são as áreas em que os concorrentes nos superam?
Quais são os aspectos em que temos de repensar a organização?
Quais são os nossos problemas em termos de penetração no mercado externo?
Quais são as barreiras que dificultam a implementação da qualidade na produção?
 

Ainda que um KJ possa ser efectuado individualmente, trata-se de uma experiência especialmente interessante e enriquecedora quando a sua construção é efectuada por equipas (com 4 a 8 elementos). Assenta genericamente na definição de níveis sucessivos numa hierarquia de abstracção ascendente (do mais concreto para o mais abstracto), através da identificação de afinidades de significado. O ponto de partida consiste num conjunto de frases escritas ao nível mais baixo de abstracção, para depois se irem desenhando, passo a passo, níveis de abstracção sucessivamente mais elevados (e desconhecidos quando se inicia o processo). Permite ainda detectar eventuais relações existentes entre os conceitos que foram emergindo do próprio processo. Por outro lado, a metodologia obriga a que a subida em abstracção se faça efectivamente degrau a degrau, sem queimar qualquer passo de abstracção intermédio.
É neste cenário criativo de estruturação do conhecimento, criação de conceitos e identificação de possíveis relações entre eles, que reside a grande vantagem do método enquanto fonte de Inovação e compreensão dos assuntos.
As diversas etapas envolvidas na construção de um KJ podem ser repartidas em quatro fases distintas (preparação, abstracções sucessivas, diagrama final e conclusão), conforme ilustrado na figura 4.8.
A duração de todo o processo de construção varia bastante com a experiência do grupo e com a quantidade de frases iniciais consideradas. Em média, uma equipa principiante pode levar entre 3 a 4 horas a construir um KJ, enquanto que um grupo experiente o fará em pouco mais de 1 hora.

 

Para finalizar esta breve exposição, iremos apresentar (figura 4.9) um KJ construído por (1998) na concepção de um novo jardim de infância (ver capítulo 3 para mais informações sobre o projecto). Este KJ foi elaborado por uma equipa de 5 elementos que procuraram encontrar afinidades de sentido e explorar possíveis relações entre os diferentes requisitos do cliente, previamente identificados, relativamente a um jardim de infância.
Os 24 requisitos seleccionados foram associados, por afinidades de significado, em torno dos seguintes grupos:

 
  • Condições físicas das instalações.

  • Bem estar.

  • Todos diferentes, todos iguais.

  • Aprendizagem da vivência em sociedade.

  • Integração na comunidade.

  • Meios humanos.

  • Organização interna.

  • Apropriação do jardim pelas crianças.

 
Subindo um degrau em abstracção, surgiram os seguintes temas centrais:
  • Abertura ao meio envolvente.

  • Cultura da instituição.

  • Formação da criança.

  • Concepção do ambiente de trabalho.

Foi assim possível, a partir de 24 frases iniciais, estruturar as ideias e perceber relações entre diferentes conceitos associados a um jardim de infância.

 

FIG.4.9

KJ de requisitos do cliente para um jardim de infância (in Sá, P., "Gestão da Qualidade Total nas Escolas", pág. 142.)


© Sociedade Portuguesa de Inovação, 1999
Edição e Produção Editorial: Princípia.    Execução Técnica: Cast, Lda.